Ivan Volpe - LAGUNNA

Este é o meu blog! Aqui vou postar todo e qualquer assunto, artigo, texto e foto que me parecer interessante para o momento, bem como os sentimentos, as letras e músicas da minha vida... Pelo menos assim espero... Visite também: www.lagunna.com.br

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Terra Blog

14.05.08

Perdas

categorias: contos e crônicas
Andava pela rua sempre procurando alguma coisa. Os óculos, a tarraxa do brinco, o isqueiro... Mesmo sem saber se tinha perdido algo, corria as mãos pelo corpo, bolsos e fechos da mochila atrás de indícios de uma possível perda.

Certa vez, ao entrar no ônibus, subindo os degraus apertando contra si a bolsa, a carteira ou qualquer outro objeto que carregava, escutou um sibilar de metal correndo pelo piso metálico do transporte público.

_ Meu deus, o que foi que eu deixei cair desta vez?

Correu os olhos pelo chão. Nada

Foi passando entre os apertos do coletivo no horário de pico, procurando qualquer coisa que pudesse dar indício de sua perda. Conseguiu sentar-se quando um jovem rapaz levantou para descer.

Ao lado, uma velha senhora sorria como que dizendo bom dia. Nem pôde notá-la, continuou a procurar por alguma coisa.

_ O que está procurando, meu bem? – perguntou a velhinha.

_ Na verdade não sei, mas senti que deixei cair alguma coisa por aqui.

_ Ah, eu vivia perdendo de tudo também, saía de casa e já deixava cair moedas, grampos de cabelo, relógio...

Tentou não dar muita trela para a senhora, ainda a correr os olhos desesperadamente por todos os cantos, mas a velhinha insistiu:

_ E não é que eu perdia tanto as coisas que me acostumei a perdê-las. Me perguntava a cada minuto: O que foi que eu perdi desta vez? O que deixei passar? O que deixei cair? E só pude entender há pouco tempo o que eu realmente perdi.

Não tolerando mais a impaciência naquela situação, deixou-se levar pela velha e virou-se, quase que agressivamente, perguntando: _ Me diga, senhora, o que você perdeu?

_ Perdi tempo. Procurando por coisas inúteis, que são feitas para cair dos bolsos mesmo, e lembrar-nos de abrir mão de tudo, pois agora, perto de meus últimos dias, reconheço que nada dessas pequenas coisas me acompanharão, nem serão lembranças de minha passagem por aqui. Mas você ainda é moça, terá tempo de perceber tudo isso.

Ficou em silêncio, procurando mais uma vez achar sentido para tudo aquilo que a senhora falava. Esqueceu-se por um instante do que tanto procurava e perdeu-se em pensamentos distantes.

_ Mas agora preciso ir, que não há mais tempo a perder – a velhinha continuou – de nada vale procurar a não ser seguir, aproveitando cada instante e cada perda, que elas nos façam lembrar que tudo acaba, tudo se vai, fica apenas o que de bom fizemos por aqui, e quanto mais, melhor.

A senhora despediu-se, levantou e desceu pelas escadas, andando em passos lentos, distanciando-se do ônibus enquanto tantos outros passageiros se amontoavam lá dentro. Uma garota sentou-se ao lado e pareceu apertar contra o peito a bolsa, evitando que algo caísse ou fosse roubado.

Mas a esta altura, já não fazia mais sentido procurar por algo que nunca seria achado.
  • criado por  ivanlagunna criado por ivanlagunna
  • Postado em 10:49:06

28.03.08

Qualquer dia desses

_ Qualquer dia desses, o mundo vai explodir.

Fiquei curioso a respeito da afirmação que ouvi e resolvi provocar o emissor “atiçando” o seu desabafo:

_ Explodir, com fogo e pressão, igual aos filmes de guerra nas estrelas?

_ Bom, não sei se vai ser igual aos filmes, mas tudo o que vemos hoje irá ruir, acabar.

Tudo bem, tudo tem um ciclo e as mudanças são inevitáveis, mas se presenciaremos uma súbita quebra de parâmetros, já não sei se acredito.

_ Acredite, meu filho. Você verá lava, nuvens negras de destruição e seres das trevas levando tudo o que não for digno da bondade de Deus.

Peraí, o papo ficou muito religioso pro meu gosto. Agora ele já estava apocalíptico demais.

_ E no fim, só quem tem Deus no coração estará livre para caminhar nas novas terras que sobreviveram. Mesmo que estas precisem de muito amor para voltarem a florescer em vida.

Pensei em caminhar pelas cinzas, o cheiro de enxofre com a ausência de plantas e animais. O que eu beberia? Ou comeria? O que eu respiraria? Claro que sou um dos escolhidos para sobreviver com Deus no coração, só tenho boas atitudes. Bom, se tenho algumas más atitudes são pequenas demais para me levarem ao inferno. Eu acho. Será?

_ Os homens de bem, então, iniciarão uma nova sociedade, recheada de amor e bondade – ele continuou - só haverá amor, paz e compaixão.

Bom, tenho bondade em algum lugar por aqui. Não, acho que deixei no bolso de uma outra calça. Mas, com certeza tenho Amor.

_ Amor incondicional, a tudo e a todos. – ele filosofava, quase sem lembra-se que eu estava ali. Falava para o ar, para o céu.

Continuei ouvindo e, sinceramente, não amo tudo nem todos não. Aliás, não suporto alguns colegas que vivem fazendo piadinhas sujas enquanto exerço meus deveres diários. Talvez eu não tenha senso de humor. Mas eles poderiam queimar nas lavas que eu nem ligaria. Ops! Não, não... eles até que devem ser boa gente. Ou não, sei lá. Ah, que queimem no inferno!

_ E não haverá julgamento entre os seres – nossa, esqueci que o guru ainda falava – Não se pode julgar, nunca...

Eu não julgo ninguém. Quem sou eu para julgar? Acordo cedo todo dia para ir trabalhar, beijo minha mulher e meus filhos - eles eu amo de verdade - pego um puta trânsito com aquele monte de barbeiros imbecis que com certeza compraram a carta, fico parado horas no asfalto por causa dos incompetentes do CET, que não criam soluções - e olha que pago todos meus impostos em dia! - tudo para aqueles filhos duma puta do governo encherem ainda mais os bolsos. E não levo nada em troca. Ainda fico ouvindo os vagabundos no farol pedir dinheiro... Também tem a minha chefe - que lhe falta mesmo é uma boa transa, aquela mal amada velha - me cobrando mais e mais rendimento... E mesmo depois de tudo, ainda me esforço tanto para ser bom e honesto e sobreviver nesta merda de país, cheia de ladrões e assassinos, que perco o tempo de viver. Neste mundo já perdido para as trevas, não dá tempo de pensar em mim mesmo.

Ah sim... Com toda certeza tenho direito a sobreviver e viver na sociedade do futuro. Estou tão fodido que com certeza Deus terá dó de mim.

E agora vi que quem estava pensando e falando sozinho era eu. O guru estava distante, pregando seus pensamentos de bondade a um grupo de pessoas do outro lado do auditório. Se Deus for como ele, talvez se esqueça de mim e me deixe falando sozinho.

Fiquei preocupado. Em alguns poucos minutos consegui enxergar que tenho raiva de tudo, ou quase tudo. Me irrito fácil, vivo julgando os outros e estou sempre mal humorado, sem realmente saber o que é a felicidade, onde ela está e como ela é.

É, talvez seja melhor mesmo queimar no fogo dos infernos e bater uma bola com o demo, enquanto deixo esta terra prometida para quem realmente pode amar em um tempo de tanta agonia.
  • criado por  ivanlagunna criado por ivanlagunna
  • Postado em 01:18:01

Cheesecake Maldito

categorias: contos e crônicas
Já acordara meio confuso, aquelas duas bolinhas alaranjadas da caixa de vitamina C pareciam sorrir para mim, não só visualmente, mas juro que podia ouvi-las tirando um baita sarro da minha cara. Tentei não dar ouvidos, sentia as cócegas molhadas do fervor anti-gripal, enquanto levava o copo à boca, contendo um líquido cada vez mais amarelado e espumante.

Goles rápidos, uma sensação de refrescância. Aquilo não era água com ácido ascórbico, era um néctar do oásis, uma porção de ondas com orvalho em ritmo de salsa. E logo estava eu caminhando novamente pelas areias do Caribe, o Sol ao longe, tenro e amigo, criando as sombras das palmeiras, onde eu podia sentir a umidade salgada sob meus pés. Mas voltei a mim em poucos instantes.

Algo estava acontecendo comigo! Uma viagem instantânea a locais paradisíacos seguida de uma brusca volta à realidade quase normal. Isso é loucura. Algum curto-circuito cerebral.

Decidi ir trabalhar mesmo assim. Peguei o carro e enfrentei o maior trânsito ao qual minha memória pode fazer referência. Vi elefantes cruzando avenidas sobre carros de circo, policiais montados fazendo escolta a um garoto num triciclo vermelho, além de uma passeata no meio da Avenida Brasil, desviando todo o tráfego caótico. Ah! E pintaram os postes da cidade de roxo. Diabos!

Cheguei ao prédio da empresa e segui meu dia. Parei para comer alguma coisa, deixando de lado meu ataque de riso anterior, quando vi meu chefe vestido de palhaço. Deve ser coisa do grande circo que chegou, pensei. Algumas de minha colegas faziam top-less no corredor. Achei estranho. Adorei ver aquilo, mas achei muito mais que anormal. Tudo mudou. Estava eu no paraíso?

Pedi um cheesecake como havia feito ontem, ao término do expediente, antes de voltar caindo de sono para casa. Guildo, o atendente da cantina, o qual sempre achei bastante lesado mas bastante simpático também, chamou-me de canto:

_ Você está se sentindo bem hoje? – perguntou num tom assustado.
_ O dia está muito estranho, mas estou bem sim. Aliás, mudaram os uniformes da cantina? É impressão minha ou você está vestido de milk shake?
_ O cheesecake de ontem estava contaminado, deixei cair na receita alguns ingredientes pessoais que não deveriam nunca ter saído do meu bolso. E já que você gosta tanto de cheesecake e comeu três pedaços, achei que deveria me preocupar. E agora estou percebendo que eu estava certo. Mas você vai sobreviver. Espero... – Guildo disse aquilo com a voz trêmula, enquanto eu ouvia dentro dos meus ouvidos a trilha sonora de psicose, os estalos agudos das cordas, o ralo, o sangue... o terror!

Relaxei, agora que entendi estar sob o efeito de algum ingrediente ilícito e lisérgico, analisei que o dia estava normal, eu é que estivera o tempo todo fora de mim. Acho que isso ocorre quase sempre, na verdade, o nosso próprio mundo acaba sendo completamente diferente do mundo dos outros. E nunca a realidade de um pode ser interpretada por outra pessoa. E, se em algumas horas, ou dias, esse efeito louco iria passar, agora só me restava curtir as sensações, pois o pior já deve ter acontecido, no trânsito ou no acesso de riso. Devo ter sido despedido, mas que mal há nisso?

Garfei o cheesecake, e dele saíram diversas mini-garotas seminuas, envoltas em cobertura de morango, dançando e cantando canções que me fizeram passar o resto da noite assistindo ao show, sozinho, ali na cantina, para assombro dos colegas que passavam por lá. Até que o Sol nasceu novamente, junto a uma enorme dor de cabeça.
  • criado por  ivanlagunna criado por ivanlagunna
  • Postado em 01:17:27

Voltando para casa

categorias: contos e crônicas
Certo dia, corriqueiro, como outro qualquer, perdi a carona para casa.

Fiquei vagando pela imensidão do estacionamento, simplesmente refletindo o fato de ter que me virar de outras maneiras para retornar ao lar.

Pegaria um ônibus, trem, metrô, um táxi caro? Ou procuraria outra carona?

Nada, decidi de repente que não. Ou que sim, dependendo do ponto de vista.

Iria aproveitar o raro acontecido para gozar um pouco a vida e caminhar, mesmo que uma eternidade, até chegar ao meu destino.

Tive essa vontade.

E comecei a seguir pela calçada, passando a pé, pela primeira vez, por locais onde antes só conhecia pelos rastros e rabiscos de cor através da janela do carro.

Pude olhar nos olhos de alguns transeuntes simpáticos e apertar o passo frente outros não tão amigáveis.

Gastei a sola, pisei na poça. Tropeços e exercícios mais tarde, sentei-me num banco de praça e assisti ao frenesi incontrolável das buzinas e da pressa mal-humorada. Pude até rir de tudo isso.

Mas logo fiquei bem cansado. E ainda não tinha chegado nem à metade do caminho. Na verdade, não havia completado nem um terço do percurso.

É, meu destino deve estar muito longe de chegar.

Desisti da missão, entrei na primeira estação de metrô que cruzei e voltei-me ao corre-corre dos empurrões e do ar, condicionado a nos sufocar.

Mesmo estando novamente ali, entre os apertos da rotina e o ordinário rush, senti que ainda era possível manter aquela idéia “carpe diem”, mesmo estando envolto às aflições dos que querem que tudo passe rápido, tudo acabe o quanto antes.

E desejei curtir ao máximo aquela volta para casa num vagão lotado, poder apreciar cada rosto em minha frente, com o tempo durando o quanto fosse necessário, para que eu aprendesse o máximo possível num simples final de dia, voltando para casa.
  • criado por  ivanlagunna criado por ivanlagunna
  • Postado em 01:16:42

21.02.08

RockBand

categorias: contos e crônicas
Há muito tempo atrás, numa galáxia não tão distante, um jovem rapaz de doze anos chamado Nauta, achou interessante a hipótese de montar uma banda. Roubou o violão da tia, que ficava jogado pelos cantos da casa da avó e, vez em quando passando pela banca de jornal da esquina, comprava revistinhas que ensinavam acordes e músicas da rádio para violão e guitarra. Naquele tempo a internet era para poucos e sites de cifras ainda não estavam na moda.

Aprendeu a tocar e a cantar, não profissionalmente, mas daquele jeito bacana que os astros do rock aprendem, criando um estilo próprio, diferente...

Alguns aniversários depois, já cursando o que antes era chamado colegial, conheceu mais pessoas com os mesmos rancores da vida, as mesmas paixões. Entre os namoricos e as provas, decidiu formar sua própria banda de rock.

Naturalmente a coisa aconteceu, seu melhor amigo de classe tocava guitarra e juntos compunham músicas de revolta contra professores e o “sistema”. Uma rebeldia tola, mas significativamente útil para a expressão adolescente.

O colega de um amigo do irmão do primo do vizinho do garoto Nauta, foi apresentado à dupla e assumiu a bateria. Era um garoto mais velho, vivido. Apresentou as drogas à banda, que iniciou então um período muito criativo e produtivo, compondo mais de “quatro” músicas, que poderiam ser gravadas num futuro breve, em uma fita demo (hoje CD demo, data demo ou uploads para myspace ou lastfm) a ser levada pelo pai de alguém que trabalhava numa loja de carpetes e que vendeu um grande lote ao diretor de uma importante gravadora que os tornaria famosos assim que os conhecesse. Claro...

Ao mostrarem as músicas em papel almaço (será que ainda existe papel almaço?) para a professora de redação, esta demitiu-se. Ninguém sabe o motivo. Coincidência? Talvez... Lendas do colégio.

Mais dois integrantes juntaram-se à banda pelos intervalos das aulas, um assumindo os vocais e OUTRA assumindo o baixo. Inovação para a época, uma banda de rapazes com uma garota participando e mandando muito bem. Sucesso garantido!

Reuniram-se na garagem do baterista para o primeiro ensaio. Era uma tarde chuvosa de domingo. Nauta atrasou-se, sua mãe foi buscar uma blusa, passaram na farmácia para comprar pastilhas de garganta, pegaram seu colega guitarrista na casa da prima e demoraram a achar o endereço do tal baterista.

Tudo pronto, amplificadores ligados, instrumentos afinados, microfone no aparelho de som antigo. Alguns esboços de Smoke on the water e uma tímida tentativa de Stairway to heaven podiam ser decifrados com dificuldade.

_ E aí, o que vamos tocar primeiro? – Perguntou o batera já ansioso e batendo em todas as peças freneticamente – O que vai ser?
_ Ah, vamos tentar um Deep Purple básico mesmo – disse o guitarra.
_ Ah não, Deep Purple não rola, pesado, né?! Uns Beatles, talvez? – Resmungou Nauta.
_ Ah que Beatles que nada, vamos mandar um Rush, um Van Halen ou um Led! – retrucou o guitarrista.
_ Led? Muito difícil pra cantar – chiou a baixista.
_ Hey, quem canta aqui sou eu! Pode mandar um Led sim! – Disse o vocal já tendo uma crise de estrelismo, como todo vocalista tem ocasionalmente, iniciando um árduo debate.

E no final não mandaram nada, só discutiram sobre o estilo da banda, quais músicas tirar, covers, composições próprias... sonhos.

Segundo ensaio.

Nauta chegou na hora, acompanhado do guitarra. Logo depois vieram o vocal e a baixista, mas o batera não estava em casa, tinha saído com outros amigos. Decidiram desencanar, o vocal e a baixista saíram para comer um doce, Nauta foi jogar videogame e o guitarra achou melhor dormir, afinal, era domingo. Iriam voltar a ensaiar na próxima semana.

Próxima semana.

Desta vez encontraram o batera em casa. Começaram tentando improvisar a composição de Nauta com o guitarrista.

Batera: _Não, não não, ninguém fica famoso assim, esse som está muito morno!
Guitarra: _Faz um arranjo melhor então, põe feeling aí, poxa.
Nauta: _É, vamos tentar mais uma vez, mas agora com alma, sentindo a letra!
Vocal: _Vou ao banheiro.
A baixista: _Vou também.
Batera: _Opa, ta comendo a baixista, mano?
Vocal: _Olha o respeito, cara, não é da sua conta.
Nauta: _Então, voltando ao som, vamos tentar de nov...
Batera: _Se liga, cara, cê ta na minha casa. Me respeite você e não fica levando a gostosinha pro banheiro!
A baixista: _Obrigada pelo elogio, mas desencana, vamos passar para outra música. Essa ta muito de frutinha.
Guitarra: _Hey, faz uma melhor, faz uma de macho.
Vocal: _ Com certeza ela faz!
A baixista: _Como assim?
Batera: _Vou quebrar a cara dessa bicha. Nem consegue cantar um Led! Ta mais para Village People. Hehehehehehe...
Nauta: _Beleza, hora do café. Quem quer um guaraná? Eu trouxe na garrafa térmica...
Guitarra: _Guaraná o caralho! Vocês querem ser músicos ou só fingir que tocam?
Batera: _Fingir que tocam? Eu sou o único aqui que fez curso!
Vocal: _Curso de baitola! Toda vaidosa!
A baixista riu.

O batera voou por sobre a bateria e agarrou o pescoço do vocal, que caiu para trás derrubando o aparelho de som. Nauta cuspiu o guaraná com o susto e ficou paralisado assitindo à cena. A baixista dava chutes no batera e ameaçou jogar um dos pratos pela janela. O guitarra, calmamente guardou suas coisas, enrolou os cabos, saiu pela porta passando o braço pelo pescoço de Nauta, que foi arrastado pelo amigo, enquanto recolhia o violão e a lancheira até a rua.

_ Não liga para esses caras, Nautinha, o rock n’roll é difícil de dominar mesmo, é para poucos! – Disse o guitarra enquanto acalmava o companheiro de composições em soluços de derrota – A gente é fuguera e com certeza chegaremos ao topo! Certo, Nauta?

_ Claro, claro... ao topo! Um dia.

Nauta sabia que, na verdade, aquele era só o começo de sua história, um começo comum para tantos que sonham viver o rock n’roll. Mas ali, diante o seu primeiro fracasso como músico-popstar-famoso-bilionário, reconheceu que lutaria por toda a vida para beber da fonte de seus ídolos e conquistar o mundo com suas palavras. Mesmo que nunca suas músicas tocassem no rádio, ele seguiria sonhando e escrevendo, até que sua obra alcançasse a eternidade.

Mas até hoje, o máximo que lhe aconteceu foi um ET cair em sua casa e pedir para ficar ali por um tempo. Seria hora de investir em sua carreira intergaláctica? Bem pensado, Nauta... Bem pensado.
  • criado por  ivanlagunna criado por ivanlagunna
  • Postado em 14:37:12