Ivan Volpe - LAGUNNA

Este é o meu blog! Aqui vou postar todo e qualquer assunto, artigo, texto e foto que me parecer interessante para o momento, bem como os sentimentos, as letras e músicas da minha vida... Pelo menos assim espero... Visite também: www.lagunna.com.br

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Terra Blog

Categoria: desabafo puro

28.03.08

Qualquer dia desses

_ Qualquer dia desses, o mundo vai explodir.

Fiquei curioso a respeito da afirmação que ouvi e resolvi provocar o emissor “atiçando” o seu desabafo:

_ Explodir, com fogo e pressão, igual aos filmes de guerra nas estrelas?

_ Bom, não sei se vai ser igual aos filmes, mas tudo o que vemos hoje irá ruir, acabar.

Tudo bem, tudo tem um ciclo e as mudanças são inevitáveis, mas se presenciaremos uma súbita quebra de parâmetros, já não sei se acredito.

_ Acredite, meu filho. Você verá lava, nuvens negras de destruição e seres das trevas levando tudo o que não for digno da bondade de Deus.

Peraí, o papo ficou muito religioso pro meu gosto. Agora ele já estava apocalíptico demais.

_ E no fim, só quem tem Deus no coração estará livre para caminhar nas novas terras que sobreviveram. Mesmo que estas precisem de muito amor para voltarem a florescer em vida.

Pensei em caminhar pelas cinzas, o cheiro de enxofre com a ausência de plantas e animais. O que eu beberia? Ou comeria? O que eu respiraria? Claro que sou um dos escolhidos para sobreviver com Deus no coração, só tenho boas atitudes. Bom, se tenho algumas más atitudes são pequenas demais para me levarem ao inferno. Eu acho. Será?

_ Os homens de bem, então, iniciarão uma nova sociedade, recheada de amor e bondade – ele continuou - só haverá amor, paz e compaixão.

Bom, tenho bondade em algum lugar por aqui. Não, acho que deixei no bolso de uma outra calça. Mas, com certeza tenho Amor.

_ Amor incondicional, a tudo e a todos. – ele filosofava, quase sem lembra-se que eu estava ali. Falava para o ar, para o céu.

Continuei ouvindo e, sinceramente, não amo tudo nem todos não. Aliás, não suporto alguns colegas que vivem fazendo piadinhas sujas enquanto exerço meus deveres diários. Talvez eu não tenha senso de humor. Mas eles poderiam queimar nas lavas que eu nem ligaria. Ops! Não, não... eles até que devem ser boa gente. Ou não, sei lá. Ah, que queimem no inferno!

_ E não haverá julgamento entre os seres – nossa, esqueci que o guru ainda falava – Não se pode julgar, nunca...

Eu não julgo ninguém. Quem sou eu para julgar? Acordo cedo todo dia para ir trabalhar, beijo minha mulher e meus filhos - eles eu amo de verdade - pego um puta trânsito com aquele monte de barbeiros imbecis que com certeza compraram a carta, fico parado horas no asfalto por causa dos incompetentes do CET, que não criam soluções - e olha que pago todos meus impostos em dia! - tudo para aqueles filhos duma puta do governo encherem ainda mais os bolsos. E não levo nada em troca. Ainda fico ouvindo os vagabundos no farol pedir dinheiro... Também tem a minha chefe - que lhe falta mesmo é uma boa transa, aquela mal amada velha - me cobrando mais e mais rendimento... E mesmo depois de tudo, ainda me esforço tanto para ser bom e honesto e sobreviver nesta merda de país, cheia de ladrões e assassinos, que perco o tempo de viver. Neste mundo já perdido para as trevas, não dá tempo de pensar em mim mesmo.

Ah sim... Com toda certeza tenho direito a sobreviver e viver na sociedade do futuro. Estou tão fodido que com certeza Deus terá dó de mim.

E agora vi que quem estava pensando e falando sozinho era eu. O guru estava distante, pregando seus pensamentos de bondade a um grupo de pessoas do outro lado do auditório. Se Deus for como ele, talvez se esqueça de mim e me deixe falando sozinho.

Fiquei preocupado. Em alguns poucos minutos consegui enxergar que tenho raiva de tudo, ou quase tudo. Me irrito fácil, vivo julgando os outros e estou sempre mal humorado, sem realmente saber o que é a felicidade, onde ela está e como ela é.

É, talvez seja melhor mesmo queimar no fogo dos infernos e bater uma bola com o demo, enquanto deixo esta terra prometida para quem realmente pode amar em um tempo de tanta agonia.
  • criado por  ivanlagunna criado por ivanlagunna
  • Postado em 01:18:01

08.05.07

No início não havia nada...

No início não havia nada...
Agora, tente imaginar este “nada” e, ainda ao meio do escuro infinito, será possível distinguir alguma poeira entre resquícios de imagem ou ruído.
Mas do nada, uma flatulência divina nos traz a dádiva de uma explosão que não teve origem, não teve começo, pois bem ali havia somente o nada. E da explosão nasce o tudo, em meio ao vácuo expansível do universo; E nós, humanos, que sempre gostamos de definir um centro a tudo, demos início à criatividade: impusemos o centro da cidade, o centro do comércio, o centro do tráfico e assim, nos levamos ao centro das atenções... E o próprio centro do universo foi nomeado diversas vezes por nós. O próprio Teocentrismo, que nos coloca inferiores a deus na cadeia hierárquica do universo, nos colocou no direito de escolher democraticamente quem seria o patrão da história. E acredito que estamos nos voltando ao antropocentrismo, cada vez mais trazendo o homem ao centro de tudo, ao centro dos livros de auto-ajuda, das terapias alternativas, da mente e da física quântica. Estamos nos olhando em retrocesso e nos colocando como porções de uma força maior e criadora, nos retornando o direito de olhar para dentro e dominar a própria realidade. E um salto tão grande em tempo de revolta e destruição pode significar duas coisas: a virada para o sucesso da raça humana ou sua aniquilação parcial, liberando a natureza de começar novamente a escrever suas linhas.
Conhecemos as lendas de outras civilizações que chegaram a este momento histórico e, de uma forma ou de outra, abandonaram esta existência. Maias, Egípcios, Atlântida e Lemúria, todos deixaram esta existência e os recados foram dados. E nós humanos modernos? O que faremos frente esta mudança que já vem sendo vivida em nossa carne? Como lidar com as afrontas naturais, reflexos de eras de abuso e inconsciência, enquanto a chance nos é trazida à tona, segundo as leis da atração, por nossa própria vontade? Somos o nosso próprio centro e este necessita a libertação imediata, a consciência absoluta e pessoal.
E enquanto o planeta grita e os corpos caem, a missa ainda é ouvida e o tudo é quase nada para quem se vai.


  • criado por  ivanlagunna criado por ivanlagunna
  • Postado em 12:01:36

Café com evolução

Café com evolução

Outro dia, descansado das pressões diárias e degustando uma boa dose de café, me dei conta de estar inteiramente tomado pela idéia da evolução. Coisas que uma simples xícara de café pode trazer à tona em momentos nada propícios... A evolução das espécies no planeta.
De um modo Darwinista, a evolução relaciona-se à seleção natural, prevalecendo as características físicas ou comportamentais dos indivíduos mais preparados e adaptados ao meio em que vivem. Partindo de outro ponto de vista, Lamarck defendia a lei da melhoria, de uso ou desuso, onde a adaptação ao meio se faria por alterações físicas que, então, dariam espaço à evolução de cada espécie. Fiquei intrigado e iniciei, dentro de minha cabeça mochileira, uma tentativa de previsão do futuro evolutivo da espécie humana:
Seremos todos gordos.
Sim, as grandes redes de fast food serão as detentoras de todo o monopólio de distribuição de comida para nós humanos. Claro, os bois também serão diferentes, já nascendo com 200 quilos, sem cabeça ou ossos. Dizem até que uma famosa lanchonete americana já produz bois desta forma. Comeremos somente carboidratos e carne processada, raramente acompanhados pelas saladas de mentira e frutas criadas em laboratório. Não teremos polinização nem água nem nada natural.
Flácidos e sem resistência física, seremos empurrados por veículos pessoais leves e velozes, não precisando mais nos preocupar com as pernas, e em alguns milênios, estas também desaparecerão! Na verdade, nem precisaremos sair de casa, pois tudo pode ser obtido através da de pedidos pela internet, com entregas automáticas efetuadas por robôs delivery. Pensando em Lamarck, nossas cabeças serão grandes, cheias de mais problemas, mais contas, mais prazos e mais números, enquanto nosso corpo será fraco e doente e, com exceção da barriga, pequeno e murcho. Pensando na seleção natural de Darwin, seremos todos ditadores, gananciosos e julgadores, egoístas e, muitas vezes, agressivos. Seremos fruto dos fortes que permaneceram vivos no meio selvagem da guerra de disputa, das diferenças sociais e da hipocrisia. Seremos fruto dos que sobreviveram às mudanças climáticas devido aos privilégios financeiros.
Também teremos muita tecnologia, cada vez mais. Não precisaremos mais nos relacionar com as pessoas, não precisaremos cultivar as amizades nem os relacionamentos, pois a vida virtual será muito mais importante e real. Você pode até instalar programas que enviam sozinhos mensagens de aniversário ou congratulações às pessoas que mais “ama”. Sua personalidade será definida neste ambiente. Criaremos uma nova rede onde nossas vidas serão traçadas e divulgadas, enquanto nossa presença física dá espaço à esta nova realidade.
Enfim, seremos menos humanos. E o planeta estará fadado a nos alimentar em silício e plástico, até que o esgotamento seja total. E então nossa necessidade de sobrevivência física será desnecessária, e nos tornaremos apenas zero e um, gravados em discos de dados, circulando pelo infinito informático.
Precisei um pouco mais de açúcar no café, para ter certeza de que essas previsões serão revertidas e nós possamos nos encontrar pessoalmente milênios e milênios no futuro, apertando as mãos entre árvores e flores, no ar puro de um jardim público.
Quando esta xícara se acabar, voltarei ao download dos negócios e ao trânsito da banda larga, para reforçar que já estamos todos ingressados nesta nova e cruel realidade.
  • criado por  ivanlagunna criado por ivanlagunna
  • Postado em 12:00:31

04.04.07

Show da Noite

Programação Noturna

A noite cai nostálgica e rosada, entre o azul imperador de um céu já estrelando de cansaço após um dia cheio de trabalho. E é logo após a porta de entrada que se concretizam as junções familiares, acima do tapete da sala, cortada pela mesa de centro vazia, onde agora se espicham os pés do senhor patriarcal, dono do lar. A mãe continua a empilhar as louças dentro da máquina de lavar louça e, mesmo estando a poucos metros da sala, grita como se fossem quilômetros:
_ Já começou?
E o senhor de bigodes, empurrando sua regata para cima da barriga, onde descarrega uma coçada que dura bem mais de dois minutos, responde farto em repouso denso:
_ Nããããão.
Um terremoto se inicia quando a filha mais velha, em tempo recorde, desce as escadas com suas sandálias plataformas, mal agarrando a seus pés, ecoando o grave tremor dos degraus por todas as paredes daquela humilde casinha geminada. Mais um grito afobado necessita percorre os aposentos do lar:
_ Paaaaaaai, já começou?
E o mesmo rosnado cansado, refletido pela luminosidade azulada do centro das atenções no momento, a santa televisão, evoca as forças do íntimo do diafragma para se soltar pelo ar com um arranhado inicial:
_ Ainda nãããããão.
Neste momento a mãe joga o último copo, meio que sem precisão, sobre a pilha já avolumada de louça suja dentro da apertada lavadora. O copo cintila, faz um som médio agudo do contato com um prato e um garfo, eles caem pelas grades sem oferecer perigo enquanto o copo gira em sua base e ameaça destruir os planos para aquele início de noite. A mãe, como uma contorcionista-malabarista, vira-se de imediato e, com a ponta de seu dedo mindinho consegue evitar a queda do copo, o vilão do horário nobre que se aproxima. Num suspiro de orgulho, ela fecha a tampa da máquina entupida e gira os botões como que automaticamente, já virada para o caminho que a levará à sala tão desejada.
Um estrondo, uma batida! A porta treme enquanto sua maçaneta gira alucinadamente de um lado para o outro. A família se assusta. Seria um bandido perdido no caos da periferia? Um seqüestrador? Um molestador de famílias? Mas o que diabos um criminoso estaria procurando por estes lados de classe média baixa?
Mais um som grotesco e a porta se abre revelando a temida sombra, que adentra a sala sem hesitar, desbravando seus interiores e revelando seu semblante pálido e suado.
_ Mãe, pai, já começou? Perdi alguma coisa?
_ Nossa, filho, que susto! Ainda não arrumou outra chave? Não, ainda não começou.
Todos sentam-se e sentem-se seguros no conforto do sofá de três lugares. O caçula, que agora tira os tênis e as meias, fazendo uma careta de repulsa, seguido pelos outros três membros da família reunida, senta-se no chão e joga a mochila para o lado, sem tirar os olhos do centro de toda a casa, o mestre da reunião familiar, o apaziguador do caos e criador da harmonia, o venerado televisor.
A hora se aproxima, tudo o que a família precisa está preparado e depositado sobre a mesa de centro, dividindo o espaço reduzido com os pés do pai: jarra de groselha com gelo, pipoca de microondas sabor requeijão, guardanapos e portas-copo, pois uma família prevenida vale por duas, e evita mais trabalho para a mãe.
A noite agora já profunda e todos aguardam o início do show, o espetáculo televisivo ao vivo, um reality show que há meses vem mexendo com os integrantes da família, seus amigos, parentes, colegas de trabalho e escola. Os olhares estão penetrados cheios de atenção no aparelho de Tv. As bocas semi-abertas só se fecham entre o mastigar de um punhado de pipocas, que são arremessados para o interior fatal, deixando que três ou quatro flocos de milho estourado caiam junto aos peruas pelo tapete imitação persa.
Plim plim! O comercial acaba, a vinheta do programa se inicia e enche de sorrisos as faces de todos os membros reunidos na sala. Mais um episódio, cheio de confrontos e batalhas, emoções e romances tão distantes da realidade para um reality show. O fade in apresenta a casa e os participantes.
_Ai, ai, está começando! – A filha não se agüenta e solta um “u-hu” empolgado.
A primeira fala e...
Piw pow puw... As luzes da casa piscam por um segundo e mergulham num breu total, quando é possível ouvir, tanto de dentro como de fora da casa um “ahhhhhhhhhhh” geral de todo o quarteirão, o bairro, quiçá, a cidade toda!
_ Não acredito! Bem agora?! Que merda! P#$@¨&... – O filho não se contem e lança no ar sua ira verbal.
_ Olha a boca, garoto, não foi esta educação que eu te dei! – O pai tenta controlar a situação.
_ Ah, vá-te à merda! – A filha explode em soluços e choro.
_ Hei, como assim?! Que que é isso?! – O pai, mesmo sem saber o que iria acertar e mesmo sem ser notado, levanta a mão como que em repreensão à filha.
_ Ah, pai, não é com você, é com esse apagão dos diabos.
_ Não acredito! Eu lavei a louça toda correndo, me esforcei tanto e não vamos conseguir assistir ao programa? Aaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhh... – A mãe se exalta.
O som do atrito revela a chama de um isqueiro iluminando parcialmente o sofá, revelando a mão ainda estendida do pai e os rostos de decepção da família.
_ Vou procurar as velas. – Diz o filho, já aceitando a derrota pelo blackout.
_ Magina, a força logo mais vai voltar e a gente vai poder assistir tudo normalmente. – A filha ensaia um otimismo sem fundamentos – Deve ser só uma manutençãozinha rápida.
_ Hei, o que é que o senhor anda fazendo com um isqueiro? Ta fumando escondido de novo? Olha que eu te dou uma lição pra nunca mais esquecer... – O pai já ia descer a mão no filho quando a luz tremulou, piscou três vezes em menos de um segundo e voltou a apagar. Todos ensaiaram um “Aaaaaaaaaaeeeeeeeeee” eufórico de alegria, mas tudo foi em vão, e a luz se foi mais uma vez.
O filho já estava longe, falando ao vento algumas bobagens e reclamações, já contidas pelos azulejos da pequena lavanderia, onde as velas são armazenadas. O pai procura pelo filho com revolta, pois um ex-fumante nunca é páreo fácil para um adolescente rebelde. A mãe cruza os braços e solta no ar todos os palavrões que há anos continha dentro de sua garganta, enquanto a filha chuta o sofá numa demonstração de puro ódio e auto-flagelo. O terror se instala naquele outrora pacífico e harmonioso lar.
_ O telefone! Vamos ligar para a central de energia! – Grita a mãe, tendo uma brilhante idéia. E após alguns segundos discutindo com o telefone, volta ao sofá, agora iluminado por quatro velas nas mãos dos presentes, e senta-se desconsolada dizendo que não há previsão de retorno da luz.
O filho enlouquece e começa a ameaçar queimar o cabelo da filha, que responde com um empurrão que quase o derruba pela mesa de centro. O pai levanta a mão mais uma vez repreendendo a atitude dos dois. A mãe, começa a chorar soltando tantas angústias retraídas, provavelmente liberadas após o ataque de palavrões. A filha agora bate as mãos na TV, esperando que esta escute suas ameaças, o filho, brincando de passar o dedo na chama da vela se queima e derruba o pires que a continha, causando enorme estrondo, a mãe, aos prantos, grita com o filho, a filha grita: _Viu o que você fez?! – O pai grita para a filha não gritar e ela responde dizendo que ele é que está gritando, ele o repreende mais uma vez levantando a mão e o filho berra pois se cortou com um dos cacos do pires. O caos é iminente, os conflitos se estreitam, a chama queima dentro de todos e uma explosão pode acontecer a qualquer momento, com grande perigo de morte.
  • criado por  ivanlagunna criado por ivanlagunna
  • Postado em 23:36:56

Show da Noite II

_ Cheeeeeeeeeeeegaaaaaaaaaa! – Grita a mãe em súplica pela sanidade extinta. – Vamos tentar ver o lado bom disso tudo! – Como se ela mesma soubesse de algum lado bom neste conflito que levaria a família a sua ruína – Sei que eu me exaltei, exagerei, todos nós brigamos, mas um apagão como este deveria ser um momento agradável, onde nós, à luz de velas, poderíamos conversar e voltar a nos conhecer como antigamente.
_ É, no meu tempo, não tinha televisão em toda casa, portanto, a gente tocava violão, jogava baralho e dormia mais cedo. E ai se eu levantasse a voz para meu pai, ele logo me sentava a mã...
_ Não é essa a intenção desta conversa, pai – A filha se interpõe à mãe – A gente podia mesmo ler um livro, conversar, cantar...
_ Ta bom, vai, vou limpar esse sangue da minha mão e a gente pode tentar jogar alguma coisa, né? – Neste momento até o filho concordou em tentar amenizar o sofrimento conjunto.
_ Então ta, vou pegar o banco imobiliário – Sugere a mãe, levantando-se e esboçando um sorriso de canto.
_ Oba! Jóia! Legal! – A aprovação é geral e a filha ainda acrescenta: _ Lá no programa eles jogam banco imobiliário todo dia!
_ É mesmo? Nossa, e o que será que o Jonny vai falar para o líder da casa hoje?
_ Nossa, lembra quando a Rose deu aquele tapa no loirão? Nooooooossa, mó legal!
_ E quando o Zé virou anjo e ele caiu na piscina...
E mesmo desligado, o televisor, majestoso e apagado, venerado pelos quatro cantos da sala de estar, onde reina agora a paz e a harmonia como sempre, mostra-se o grande detentor dos poderes de união da família brasileira, que sempre pode confiar num programinha de final de noite para afastar os temores e males, além de iludir-se nos reality shows de mentira, enquanto o lucro vai para os fabricantes de pipoca e groselha e os soberanos mestres da manipulação global, donos da mídia aceita e indiscutida pelo povo, que sempre aceitará (aceitaremos) ser isso que sempre foi (fomos).
  • criado por  ivanlagunna criado por ivanlagunna
  • Postado em 23:36:30