Ivan Volpe - LAGUNNA

Este é o meu blog! Aqui vou postar todo e qualquer assunto, artigo, texto e foto que me parecer interessante para o momento, bem como os sentimentos, as letras e músicas da minha vida... Pelo menos assim espero... Visite também: www.lagunna.com.br

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Terra Blog

Arquivo de: Dezembro 2007

18.12.07

Sons estranhos durante o jantar

categorias: contos e crônicas

Você conhece a garota perfeita.

Bela, simpática, inteligente, corpo escultural, independente...

Você se apaixona na hora e, por algum motivo inexplicável, ela sente atração por você e aceita trocarem telefones.

Alguns dias se passam e você resgata a coragem do âmago para ligar convidando-a para um encontro num restaurante qualquer.

Inexplicavelmente ela aceita.

Ela, de vestido decotado, bebe vinho enquanto pede um prato simples, nada de luxo, nada de joguinhos, apenas sinceridade e curtição.

Você tenta impressioná-la com uma elegância forçada, mas ela caçoa disso... Perfeita!

Chegam os pratos.

Você abaixa a cabeça e, ao dar a primeira garfada, levando o talher recheado em direção à boca, ouve um som estranho e estridente, um tanto molhado e, ao mesmo tempo, duro, crocante.

O conteúdo do seu garfo é derrubado no prato seguido do tremor repentino causado pelo susto que acompanha o som.

Seus olhos levantam-se rapidamente procurando a origem do barulho, que não cessa, irritantemente, ecoando em sua cabeça.

E então a mais horrível das verdades é revelada, quando ao voltar a visão à mesa, você percebe que os barulhos vêem daquela carnuda, mas já não tão bela boca, que o acompanha no jantar.

_ Não é possível! Uma mulher maravilhosa e perfeita como esta, dando bola para mim, um pançudo cervejeiro sem nenhum glamour a oferecer e, no entanto, faz este tremendo barulho nojento ao mastigar!

Você pensa: Ninguém é perfeito. E eu até que posso me acostumar a isso.

O jantar prossegue como se aquele som interminável não estivesse sendo ouvido.

Durante a sobremesa, quando cada mastigada da já não tão adorável moça é como um forte choque elétrico em seu crânio, você ainda tenta se convencer que é possível amá-la apesar da adversidade.

Nas semanas seguintes você faz terapia, conversa com seus pais, amigos, tenta achar o problema dentro de você, até que se convence a marcar outro encontro com aquela deusa, pois como deixaria escapar uma mulher daquelas só por causa de um defeitinho besta?

Segundo jantar.

Ela ainda mais sexy, você com um tampão de ouvidos no bolso.

Conversam, bebem, bebem, você bebe um pouco mais...

Fazem os pedidos e, por alguns segundos, você se esquece do defeito dela, já sonhando com os filhos que terão, a casa, o natal com a família...

Chegam os pratos.

De uma vez, como uma paulada na testa, começam os ruídos altos e chocantes, como o inferno a bater em sua porta.

Primeiro você tenta relaxar, mas logo sente esquentar a garganta, seu estômago rejeita os alimentos, suas orelhas ficam vermelhas, você sente sangue em abundância em seu rosto, como uma urticária esfregada a cada dentada que a garota exerce sobre o que parecem ser pedras em gel, mastigados com força e de boca aberta.

_ Chegaaaaaaaaaaaa!

Seria impossível. Seus amigos mais tarde o chamarão de bicha, de frouxo, pediriam o telefone da beldade e caçoariam do ato até depois de sua morte.

Não foi fácil para você aceitar o fato de sair correndo do restaurante daquela forma. Muita culpa.

E ela pode ter ficado magoada, mas não seria possível viver ao lado daqueles sons estranhos toda vez que comessem juntos. Mais difícil ainda seria manter desculpas para nunca comerem juntos.

E mais uma tentativa de achar a mulher ideal escorreu por suas mãos.

Mas desta vez, junto com todos os sentimentos de derrota e coração partido, brilha um alívio, uma sensação boa de “escapei de um futuro terrível” que o consola e dá forças para a busca pela próxima vítima.

E você pensará mais vezes na expressão “ganhar pela boca”. E sairá cantando pela vida:

“Laranja madura
Na beira da estrada
Tá bichada ou tem marimbondo no pé”...


  • criado por  ivanlagunna criado por ivanlagunna
  • Postado em 23:11:18

Nauta e o ET III

categorias: contos e crônicas
Desligou o telefone após uma conversa ininteligível de aproximadamente três segundos. Olhou ao redor, esticou seu pequeno corpo esguio na cama de Nauta e, levando as mãos sob a nuca numa rápida e preguiçosa cruzada de pés, ET suspirou com superioridade:

_ É tudo mentira!

_ Ãh, como assim? Perguntou Nauta, ainda assustado com o fato de receber uma visita intergaláctica em sua casa.

_ Tudo isso que você acredita ser o universo, a vida, os dramas humanos... Tudo mentira. Pura invenção de uma mente única partilhada em sistemas holográficos individuais de crença.

_ Hmm, ta bom. Mas, sem querer ser intrometido, conseguiu falar com seus “amigos”?

_ Amigos? Hahaha... Boa! Consegui falar com o conselho e eles mandarão um Ckronk em dois Hollons.

- Ah. Legal.

_ Ckronk, um tipo de guincho para espaçonaves.

_ Ólons? Deixe-me adivinhar, uns dois dias, talvez? - Disse Nauta, em tom arrogante.

Caindo em gargalhadas, ET rolou pela cama e caiu de joelhos no chão apoiando-se em uma das mãos, como que se estivesse passando mal.
_ Ai, ai, esse nitrogênio em abundância me deixa muito bêbado. Não, não, Hollons são, no seu tempo aqui na Terra, praticamente sete anos.

Nauta segurou-se para não explodir em desespero. Passou por sua cabeça todas as possibilidades para contornar tal situação: chamar a polícia – e ninguém acreditaria que ele estava realmente recepcionando um ET – ligar para seus pais ou seus amigos – que provavelmente o internariam – ou simplesmente acostumar-se à situação e ver até onde essa maluquice psicodélica chegaria.

Pensou durante alguns minutos enquanto o pequeno ser verde vasculhava o quarto da casa. Nauta coçou o couro cabeludo e decidiu optar pela oportunidade única de obter informações, dar uma chacoalhada em sua vida pacata e medíocre e, ainda por cima, poder conhecer mais sobre o universo.

_ Bom, já que vamos passar um tempinho juntos, Senhor ET, fale-me mais sobre essa história de mentiras.

_ Tudo mentira! Até o que você acredita ser seu pior pesadelo! E corta essa de senhor, ok?!

_ Ah, ta! Quer dizer que eu levar um raio na cabeça enquanto passeava na praia ou fazer um tratamento de canal com uma dentista que tinha mal de Parkinson é ilusão? E todo o trauma que me persegue? E as frustrações financeiras? Rejeições do sexo oposto? Cadê a mentira?

_ Acho que temos muito o que conversar meu querido, mas antes, você poderia me mostrar a casa. Onde é o banheiro, a sala de divisão atômica, o reservatório de alimentos?

E saíram pela porta do quarto trocando palavras intermináveis, descendo as escadas em direção à peça mais importante e fundamental de toda e qualquer casa terráquea: A geladeira.
  • criado por  ivanlagunna criado por ivanlagunna
  • Postado em 23:10:27

Nos corredores de um bar qualquer

categorias: contos e crônicas
Perdeu-se na meia-luz de um refúgio pós-cotidiano, onde as dores da rotina podem ser parcialmente diluídas num desabafo etílico com o espelho, ou simplesmente em confissões ao barman.

Citava Frejat enquanto chamava para si a culpa por não estar em casa cuidando de seus filhos e de sua mulher. Talvez por não tê-los, talvez por sonhar em um dia alcança-los, na realização de um sonho costumeiro.

Foi entre um gole e uma tragada de fumaça que pôde percebê-la entrar pela porta e descer vagarosamente as escadas, na esperança de reconhecer um rosto ou um ombro, onde pudesse descansar suas aflições passageiras.

Olharam-se de relance. Ele fingiu não estar interessado na morena doce e esguia. Ela realmente não notou ninguém entre tantos que ali expressavam a mesma angústia.

Sentou-se no balcão, pediu um Martini. Olhou novamente ao redor balançando os cabelos e exalando um perfume suave e cítrico. Ele mais uma vez recusou-se a encará-la, com medo de reencontrar a história de mesmo final, mesmas discussões, mesma perda.

Somente alguns poucos metros separavam os dois. Podia observar suas lágrimas invisíveis pelo jeito de dobrar as pernas e apoiar a bolsa no balcão. Cabia a ele decidir como seria sua vida daqui em diante. Uma simples recusa era reprimida por seu ego cicatrizado e qualquer resposta seria definitiva para mudar seus rumos.

Ali, ao lado da mulher com quem passaria todos os dias de sua vida, desejou o Amor em sua singela porção, como qualquer um deseja: puro, sem fronteiras nem barreiras, mesclando um ao outro como se sempre tivessem sido o mesmo, desde o nascimento, em histórias que se cruzariam eternamente.

Podendo tocar as mãos e os lábios em comunhão ao material e ao inatingível, admirando cada sorriso, cada gesto, cada vício. Esperando que pudesse acordar sempre ao lado dela, assistindo ao seu sonho, alisando seus cabelos. Sem pressa, sem medo. Sendo assim o Amor verdadeiro.

Levantou-se, pegou o casaco e o maço de cigarros. Andou em passos tímidos rumo ao futuro perfeito, à conquista da mais bela das riquezas.

Abriu a boca e a porta, dando ampla meia-volta e mergulhando novamente no mundo dos solitários entre o caos humano.

Despediu-se de tudo o que podia ter sido aquele encontro com o destino, abdicando da ocasião dada como presente ao sonhador. E ele tinha tudo ali, nas mãos, tão próximo...

Ela então pôde expressar seus anseios junto ao copo da bebida cristalina e os funcionários da casa, acostumados com os desencontros perfeitos que deixam no ar a história inacabada dos inúmeros amores possíveis, desperdiçados nos corredores de um bar qualquer.
  • criado por  ivanlagunna criado por ivanlagunna
  • Postado em 23:09:17