Ivan Volpe - LAGUNNA

Este é o meu blog! Aqui vou postar todo e qualquer assunto, artigo, texto e foto que me parecer interessante para o momento, bem como os sentimentos, as letras e músicas da minha vida... Pelo menos assim espero... Visite também: www.lagunna.com.br

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Terra Blog

Arquivo de: Outubro 2007

27.10.07

O Homem beterraba

categorias: contos e crônicas

Nauta sempre foi um garoto tímido e que vivia praticamente 90% do tempo em “seu próprio mundo”.

Nasceu nos berços de bronze da classe média, aprendendo desde o início sobre as obrigações do homem e seus poucos direitos.

Na escola ia muito bem (obrigado), sendo sempre um exemplo para os outros alunos e o orgulho dos professores.

Por causa de sua timidez, nunca se relacionou muito bem com o sexo oposto. Mergulhava em amores platônicos nunca expostos ou correspondidos.

Apesar disso tudo, todos eram seus amigos e prezavam muito sua companhia.

De tanto querer fazer parte dos grupos mais populares, Nauta ficava atento a todas as novidades que surgiam nas rodinhas dos intervalos. Tanto que, numa bela manhã, foram levadas aos seus ouvidos, informações quentíssimas sobre uma nova forma de impressionar a galera: comer beterraba aos montes e mijar vermelho.

Noooooossa! Aquilo era demais! Será possível mesmo observar sua urina totalmente magenta ou rubra? Nauta tinha que ser o primeiro a provar se esta teoria era real ou uma simples invenção infantil. Muniu-se de coragem e anunciou ao bando de moleques:

_ Hoje, não seremos mais os mesmos “homens”. Teremos nas mãos a infinita possibilidade da mudança, seremos lembrados para todo o sempre em honra e coragem pelo bem da ciência. E, claro, poderemos até ficar famosos ou, no mínimo, reconhecidos pelas mais belas garotas que correm por este pátio escorregadio.

E logo chegava a tão esperada hora da merenda. Todo o bando muniu-se de bandejões e talheres, prontos para experimentar a iguaria sem limites.

Dizem que naquele almoço de sexta-feira, foram consumidas quantidades recordes de beterraba, como jamais relatadas anteriormente.

Em alguns minutos, poucos ainda aguentavam comer alguma coisa, já estufados pela mistura de bife a cavalo com alface, cenoura e beterraba. Outros abandonavam a tarefa arrasados pela derrota e alguns ainda acreditavam que em poucas horas o lavatório estaria irreconhecível e todo pintado.

Mas lá estava Nauta, o líder do movimento RedPiss, disposto a tudo pelo reconhecimento. Não pegou mistura nem saladas, tampouco beliscou o bife com ovo. Seu bandejão era só beterraba e já corria para sua terceira rodada:

_ Beterrabas por favor.

_ Mas Nautinha, você nem sequer vai experimentar o resto?

_ Não, não, muito obrigado. Só beterrabas.

E continuou firme na tarefa, sem desistir ou fraquejar. Todo o refeitório agora levava atenção ao garoto-beterraba, enquanto era possível começar a ouvir os gritos de encorajamento ao fundo: Nauta, Nauta... ou então: Homem beterraba! Homem beterraba... A emoção era enorme. A adrenalina crescia. Não estava acostumado com aquele auê todo para si.

Já podia sentir o reconhecimento na posteridade: “Por aqui passou Nauta, um garoto de talento e bravura”.

Ficava entusiasmado a cada garfada das rodelas cozidas e salgadas de beterraba. Vibrava ao som da torcida, tremia de emoção. Foi quando parou com o garfo entre os dentes e sentiu que alguma coisa acontecia internamente. Desejou que fosse sua bexiga preparando-se para expelir o líquido escuro e vibrante, para delírio da galera. Mas percebeu que o problema era mais acima.

Tossiu de leve, levou as mãos ao estômago e olhou suplicando o auxílio de seu melhor amigo, Gordines, que já percebia a enfermidade de Nauta:

_ Chegaaaaaaaa... Ele quer falar alguma coisa!

Silêncio. Todos estavam apreensivos e com os olhares e audição fixados em Nauta, que levantou devagar, ficou verde e, enquanto todos esperavam suas palavras de glória e vitória, abriu a boca despejando litros e mais litros de vômito roxo sobre a mesa do refeitório.

A multidão pulsou em pavor enquanto o conteúdo estomacal de Nauta era apresentado em forma de beterrabas mastigadas por todo o salão. Alguns vomitaram junto, não contendo a ânsia diante tal cena de horror. Correria, pânico... Alguns choravam, outros gargalhavam e a batalha rumo ao sucesso deu lugar ao mais relembrado mico da escola.

Nauta foi chamado de herói e também de palhaço, mas ficou conhecido por todos, sem exceção. Após alguns anos depois de formado, penduraram um quadro em sua homenagem no imenso refeitório:

“Proibido fazer refeições de apenas um item. Mínimo de duas misturas e guarnições à vontade.”

E nunca mais serviram beterrabas naquele estabelecimento.

  • criado por  ivanlagunna criado por ivanlagunna
  • Postado em 10:04:53

15.10.07

O Nauta e o ET. II

categorias: contos e crônicas
Tremia debaixo das cobertas, suando frio e sob pânico intenso. Não era sempre que um objeto incandescente atravessava as nuvens alaranjadas em direção ao solo e sucumbia bem no meio do jardim de sua casa. Pensou em chamar a polícia, mas ninguém jamais acreditaria numa fábula dessas. Muniu-se de lanterna e, se escondendo entre as cortinas da janela, observou um pequeno ser verde e cabeçudo empurrando o tal objeto voador não identificado (que por sinal havia feito uso de grandes pára-quedas para amortecer a queda) para trás de um arbusto.

Mais uma vez tremeu de medo e, por descuido, percebeu que havia sido flagrado pelo alienígena visitante. Apagou a lanterna rapidamente e, ao fundo, pode ouvir o lixeiro passando pela rua e causando tumulto entre os caninos da região. Talvez agora estivesse a salvo. Ou talvez não.

Cobriu-se com os lençóis e esperou pelo pior: a guerra dos mundos, a invasão de marte, o fim dos tempos. Assim real, como o cinema jamais havia mostrado.

Um breve espaço de tempo.

Silêncio.

“Toc-toc”

_Ah meu deus! O alien está batendo no vidro da minha janela! Chegou meu fim, esta é a minha hora!

“Toc-toc, Poc-Poc, Top-top”

Um som esganiçado e rouco vinha do lado de fora do parapeito e parecia-se com o ronronar de um felino misturado ao canto de uma baleia: _Grwindalleff Waullubbah Babbauu!

O rapaz não pensou em nada, sentiu o coração na boca e, na tentativa frustrada de um berro, murmurou quase sem voz:
_Não me mate!

Depois de alguns segundos, vinha a resposta por trás do vidro:
_ Mil desculpas, terráqueo, me esqueci de ajustar o audiovoicer de meu traje espacial, mas agora posso me comunicar em sua língua. Claro que não o matarei.

_ Você veio para dizimar o planeta, acabar com a raça humana, dominar a galáxia? – Perguntou o pálido e assustado garoto.

_ O quê? Não, não, claro que não! Eu adoraria fazer tudo isso, mas minha missão hoje é outra. Será que, por obséquio, poderia eu usar seu telefone?

O rapaz, pensou duas, três, nove vezes. Poderia oferecer ajuda a um estranho de outro mundo e ser devorado ou desintegrado, mas também poderia esta ser a chance de sentir fortes emoções em sua pacata vida e conhecer um pouco mais do que há além do céu da Terra. Dúvidas, muitas dúvidas. Tremia muito, mas decidiu enfrentar seu medo e abriu a janela, sem conseguir olhar diretamente para o ser.

_ Boa noite, terráqueo, Sou Ewerance Tatooine. Meus amigos me chamam de ET. Onde está o aparelho de telecomunicações?

_ Bom, é um prazer conhece-lo. Meus amigos me chamam de Nauta. Serve este telefone aqui?

_ Claro, claro, Nauta, serve sim; Muito obrigado.

O garoto foi criando coragem aos poucos e já fitava o pequeno e esverdeado cabeçudo com curiosidade e asco. O medo dava lugar à curiosidade. Por mais alucinante que aquela aventura se mostrava, sabia que a partir daquele momento, nada mais seria igual.

_ É, só para saber; ET, hehe (risada sem graça), a ligação é interurbana? A cobrar talvez?

_ Bom, caro amigo sapiens, digamos que esta ligação está além de qualquer cobrança. A propósito, adorei seu pijama de dálmatas.

Assim começa uma verdadeira amizade intergaláctica.
O ET e o Nauta, unidos pelo destino cósmico e prontos para terem suas vidas mudadas para sempre.
  • criado por  ivanlagunna criado por ivanlagunna
  • Postado em 16:14:22

Enquanto isso, do outro lado da galáxia...

categorias: contos e crônicas
Caso você resolva visitar o corredor galáctico de Glasmore, o cultuado bar para solteiros de variadas espécies, onde os mais excêntricos e famosos fazem refeições picantes de grummye ao molho radioativo (uma espécie de réptil voador nativo dos Asteróides Inválidos, frito no óleo de caldeira com cobertura de geléia de gengibre terrestre), é bem possível que uma bela humanóide centauriana lhe faça convites indecentes para arrumar companhia. Elas adoram um terráqueo perdido na vastidão dos centros espaciais.

Pode ser muito comum ouvir o diálogo que segue, semelhante ao que experienciei em uma de minhas últimas visitas ao famoso bar:

_ Grislat Commondera, Mashtech leblat?
_ Ah, me desculpe, mas não falo centauriano muito bem.
_ Oh, um terráqueo novato em minha galáxia! Que prazer enorme!
_ Obrigado. Muito bacana aqui.
_ Adoro suas gírias nostálgicas. Bacana...
_ Hehehe (risada sem graça).
_ Olhe, posso te pagar uma taça de Bullbonic?
_ Não quero parecer rude, mas estou aguardando alguém. E sou alérgico a esse tipo de mistura. Mas obrigado assim mesmo.
_ Sem problemas, posso te fazer companhia enquanto esse “alguém” não chega.
_ Ah, é... bom... ah...
_ Claro, claro, uma "garota" como eu te deixa nervoso, certo? Gostaria muito de te conhecer melhor, pois quero me divertir esta noite e você é tão atraente...
_ Não é bem isso, é que...
_ Não se preocupe, sei que minhas guelras podem parecer estranhas, mas você não tem idéia de como posso usá-las em você...
_ Por favor, solte minha perna.
_ Ora, não gosta de carinho, terráqueo? Prefere tentáculos a ventosas? Posso providenciar uma mutação agorinha... Vamos, deixe-me entretê-lo.

Neste momento a centauriana apela para uma metamorfose estranha e repugnante, mesclando o rosto angelical de lábios carnudos da linda Scarlett Johansson ao corpo magro e grotesco do Keith Richards.

_ Chega, vou embora.
_ Ah, não se levante tão rápido, homem da Terra, sei que você me quer.
_ Estou perdendo a paciência, tentei ser delicado até agora...
_ Que nervosinho... aposto que você era jornalista antes de se tornar viajante estelar.
_ Deixe minha cueca em paz. Que atrevida!
_ Ah, só um amassinho, de leve... aqui tudo é liberado, esqueça os valores morais e entregue-se a mim. Ah, assim, agora!
_ Olha, cansei! Saia de cima de mim antes que eu te meta a mão no focinho!

Antes mesmo do segurança Wookie aproximar-se para apartar a briga, a centauriana desiste, volta à forma original e, desconsolada, segue cabisbaixa em direção a sua mesa, onde outras sete de sua espécie planejam o ataque a mais dois terráqueos bêbados no canto do corredor.

Paguei a conta e retirei-me do balcão imaginando que, em outras épocas, aquela seria a oportunidade perfeita para uma transa sem compromisso e recheada de fantasias. Mas os tempos são outros e chego à conclusão de que estou ficando velho e cansado de tantas aventuras espaciais. Pena que as terráqueas não ajam como as centaurianas... Seria uma beleza!
  • criado por  ivanlagunna criado por ivanlagunna
  • Postado em 16:09:00