Ivan Volpe - LAGUNNA

Este é o meu blog! Aqui vou postar todo e qualquer assunto, artigo, texto e foto que me parecer interessante para o momento, bem como os sentimentos, as letras e músicas da minha vida... Pelo menos assim espero... Visite também: www.lagunna.com.br

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Terra Blog

Arquivo de: Junho 2007

29.06.07

A verdadeira estrada

categorias: contos e crônicas
Desde menininho, ruminando e mastigando o mundo, jogado na imensidão do capim e da terra batida, o cantador e profeta de viola segue seu rumo incerto em uma estrada isolada e verde do interior brasileiro. Perdido entre o asfalto e a caçamba de um velho caminhão vermelho, mas muito achado em seu destino como salvador de almas, o artista popular de pequenas multidões relembra suas passagens pelos grandes palcos das cidadezinhas, que se mostram modestas e solitárias em todo um sertão castigado pela ignorância e pela falta de luxo.
Um caminho mais duro seria percorrido agora entre os solavancos dos pneus e o gosto seco de terra vermelha na saliva engolida a seco. Voltava de uma longa estada entre os braços de sua morena preferida, não a única, mas a mais querida, que afagava suas dores de amores com muito afeto e calor enquanto seguiam-se as noites quentes do interior. Cantava a ela suas novas canções de salvação enquanto era muito bem cuidado pela morena e seu coração. Mas disse adeus tão brevemente que nem verdade pareceu, deixando a esperança de um regresso prematuro pela porta da frente, rangendo o chão de madeira e o batente, na vontade corriqueira de acender a lenha do fogão e requentar a ceia à luz do lampião.
Mas voltava, a cada solavanco, para a estrada capataz, que o levava a uma verdade mais voraz, uma voz e um violão, contra a espingarda que repousava em outras mãos. Prestes a encarar de frente a dor e reencontrar seu fim de onde decidiu partiu há muito. A estrada o levava a sua cidade natal, seus primeiros filhos, um pai, o aval normal de um homem decente e digno, como se regressasse do mal.
Olhou em volta, pensou na morena, tirou pequenos acordes mancos da viola serena, cantando triste e relembrando o refrão. Cavalo esperto não espanta a boiada, seria esta sua matuta virada, aceitando o destino que perseguiu desde fraco e mirradinho. Respirou fundo a mistura do ar e do caminhão e dirigiu-se ao anfitrião:
_seu motorista, vai parar em algum outro ponto, uma cidade acolhedora senão o final da estação?
_não, caro artista, sigo reto esta pista para garantir o meu pão.
_ então, faça a gentileza, amigo da estrada, pare um minuto que eu desço aqui.
E desceu livrando-se da poeira acumulada, fez reverência como se aguardasse aplausos da platéia de passageiros na caçamba e olhou ao longe a estrada sem fim, que o levaria, quiçá, ao seu destino real, entre a balança moral e sua grande paixão, a terra, o asfalto, o babado capim. Suspirou como digno filho do senhor, ergueu a mala e a viola e, a passos lentos, caminhou em direção ao seu amor, tendo certeza de que o regresso a seu verdadeiro lar seria voltar de onde saíra, dos braços de sua caipira, que tanto se pôs a chorar.
E assim disseram do artista, que jamais voltou, jamais pegou outra pista. Cantou para quem quis ouvir e, driblando esta vida marvada, fez as vezes de ser mais feliz.

Ivan Volpe
29/06/2007
Ao som de Rolando Boldrin e Renato Teixeira, cantadores do Brasil em sua mais pura simplicidade, realidade e beleza.
“Sou cantador e tudo nesse mundo vale pra que eu cante e possa praticar. A minha arte sapateia as cordas, esse povo gosta de me ouvir cantar”
  • criado por  ivanlagunna criado por ivanlagunna
  • Postado em 11:05:44

21.06.07

Correria

Corro todos os dias, me vejo a passos dados de longas passadas pela calçada, pela rua ou mesmo pelos tacos e pisos da casa.
Arranho o tapete já gasto pela velha sola lavada, onde as marcas são sempre as mesmas, as mesmas pegadas.
Digo que agora não posso, estou muito ocupado, mais tarde quem sabe, depois, me largue.
E sigo correndo, ansiando o término de algo que nem sei mais o que era, para onde ia, ou quem desejava e o que me trazia.
Corri tanto que me ultrapassei, nem me vi passar.
Corri para chegar a tempo, corri para não perder tempo, corri para dar tempo.
Corri para garantir o futuro, o meu futuro, o futuro dos meus filhos, o futuro da nação... Tudo isso ou não, nem tanto.
Sei que corro desde pequeno, quando ainda livre dos falsos desejos, era empurrado em quatro membros pelos corredores da infância conduzida, onde se faziam necessárias as obrigações, as agendas, as tarefas e os deveres de casa.
E aprendi assim a ser um corredor como todos, corria feito louco para ir bem nas provas e no inglês.
Também corri para jogar bola, era bom estar na escola, mas foi demais para mim correr assim.
Correr para escolher uma profissão, uma faculdade, correr para o vestibular e para as atividades extra-classe.
Corri e tantas vezes me perdi, repeti a corrida para, de novo, chegar ali ou aqui.
Corri para ser alguém, para ser reconhecido e para tanto ouvir que corri atrás do que quis. Quem quis? Eu quis? Nem me reconheço mais de tanto que corri.
E corri para chegar onde tantos outros já chegaram, sonhando em desbravar o desconhecido rumo ao espaço infinito de tantas outras corridas.
E enquanto isso, o mundo pede freio e grita sua agonia no tempo criado para ser sentido, vivido e menos corrido, menos concorrido.
Espero então que toda essa correria valha mesmo alguma coisa, pois se realmente corri demais e ao fim chegar mais cedo do que esperava, qual será a glória de ser o primeiro?
Vejo que corro como todos correm e atropelam o que estiver à frente, só para ser o vencedor em tudo.
Preferia ser um dos últimos para, lá de trás, onde ainda era o começo, poder gritar: _Lá vão os corredores para cedo se despedir do mundo.
Por que tudo isso? Tanta correria, tanta pressa, tanta agonia. Tudo para chegar ali, no fim da corrida? Dizer tchau, te encontro em outra vida?
Se esperei ou se corri, o importante é que até agora, tudo isso me trouxe até aqui.
E espero poder parar de correr um pouco por enquanto, só para apreciar a paisagem que distorcia de tanta correria.
  • criado por  ivanlagunna criado por ivanlagunna
  • Postado em 00:07:01

06.06.07

O Filho do Homem

categorias: contos e crônicas
Sua mãe era uma devota, tímida e retraída, como a maioria das mães daquela época; Freqüentava a paróquia de Santo Afonso Rodrigues, na outrora pequena cidade de Bagé, no extremo Sul do Rio Grande. O pai, dono de grande fábrica que confeccionava botões de metal para a indústria têxtil, era importante empresário, muito conhecido e respeitado na cidade. Ainda jovem, o casal foi abençoado com um filho mirradinho a quem decidiu batizar de Jesuado, em homenagem ao ídolo maior, o grande filho de Deus entre os homens. O pai era muito ocupado e ausente das obrigações da igreja, tanto que, como se pedisse perdão pelos pecados, concordou com o nome escolhido pela esposa beata.
E assim, Jesuado foi atirado ao mundo já como motivo de chacota entre as enfermeiras, que soltavam os sorrisos sarcásticos umas às outras ao perguntar sobre o tal Jesuado, incluindo uma piada que, de tanto ser repetida, tornou-se típica da cidade: _Você conhece o Jesus Zoado? O herdeiro dos botões? É, é o filho do homem, tchê!”.
Enfim, Jesuado cresceu sofrendo os estigmas da vida, carregando a cruz que lhe foi confiada desde o batismo e sofrendo pelos homens em sua missão de salvação. Na escola, os garotos tiravam onda com o magricela já na chamada:
_Jesuado? – Chamava a professora.
_Presente. – Respondia ele tímido e com a cabeça baixa, já preparado para os comentários que se seguiam:
_Hahahahaha. Ai se Jesus ouve...
_Mas Báh, Ele sabe que foi zoado!
_Hahahaha. É claro que Jesuado está presente, ele está em TODO lugar!
_Mas cuidado, Ele é o filho do homem, tchê! Hahahaha...
É impressionante como as crianças do primário podem ser más. Mas Jesuado era muito amado em casa e fazia questão de carregar uma grande serenidade e calma com maestria rara. Ele timidamente murmurava para si mesmo, como que se aceitasse a brincadeira: _Perdoai-os, oh pai, eles não sabem o que fazem...
E seguia pela rua e pelos comércios da pré-adolescência recebendo as piadas, já sem se importar com elas. Caminhava todo dia até a fábrica de seu pai, onde ia aprender as lições da vida adulta e, num belo dia, como fato comum entre os humanos mortais na Terra, foi necessário que tomasse o lugar de seu pai na fábrica, que há muito se transformara em ícone do estado, com milhares de funcionários e exportações estrangeiras. Foi então que os problemas de fato apareceram, ao ter de lidar com os magnatas da indústria têxtil, e toda aquela calma aparente de Jesuado deu lugar a uma grande ira. Crescido na criação gaúcha, cheia de imponências, orgulho e razões, começou a se irritar em demasia com os poderosos que, em bobas piadas de vendas, insistiam em lhe zombar o nome. E agüentar os desaforos dos ricaços impiedosos já era demais. Diferentemente das besteiras infantis, os grandes empresários eram maliciosos e estavam atrapalhando os negócios da família.
_O Senhor Jesuado está?
_Sim, quem gostaria de falar-lhe?
_Aqui é Judas, avise-o que Pedro, Paulo e André estão aguardando para a ceia.
E a ligação caía.
Ou outros mais ousados diziam:
_Alô, Jesuado? Eu gostaria de fazer uma encomenda.
_Claro, de quantos botões tu precisas? _ Perguntava inocentemente.
_Botões? Não, você não é o filho do homem? Eu preciso é de milagre, mas não pode ser do zoado, só do Jesus. – E desliagava em gargalhadas. Na verdade eram todas as piadas sem a menor graça.
Tanto aborreceu-se, que um dia resolveu acabar com toda aquela palhaçada, encheu o peito de coragem, pediu todo perdão do mundo a sua mãe, arregaçou as mangas em ódio mortal e trocou de nome. Nem Yeshua, nem Nazareno, Messias ou mesmo Cristo, Jesuado agora era Jesus, simples e totalmente, onipotente.
Trocou também seu posto, indo cuidar de sua verdadeira vocação, ajudar os homens, cedendo a presidência da empresa para seu irmão menor, Jeová, que tinha muito mais talento para lidar com as falsidades do mercado e com as piadas dos magnatas. Com harmonia e talento conjuntos, Jeová e Jesus, uma dupla de peso na presidência e no suporte ao cliente, atraíram mais lucros e sucessos para a companhia de botões do que podiam imaginar.
E ainda hoje, quem quer que entre em contato com a central de atendimentos especializados da Fábrica de Botões São Paulo de Tarso de Bagé Ltda., pedindo informações urgentes para assuntos que ninguém conseguira solucionar, encontrará a sabedoria plena para todas as suas questões nas palavras ternas de Jesus, o filho do homem, que nunca mais fora zoado por ninguém, ao contrário, sempre elogiado com palavras que frequentemente se repetiam, contribuindo para o crescimento infindável dos bons negócios em botões:
_Mas báh! E não é que só Jesus salva, mesmo?!
  • criado por  ivanlagunna criado por ivanlagunna
  • Postado em 01:12:11