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parte II
Essa informação já bastara para o astuto desenhista esboçar as pistas de seu misterioso cliente, desvendando o acontecido. Há duas fileiras de Adalberto, exatamente em frente à mesa da professora, sentava-se a bela e ruiva Luciana, simplesmente a garota mais doce da classe, desejada e comentada por todos os garotos da escola, e que diferentemente de nossa geração, não criaram defesas anti-rejeição em clubinhos proibidos para garotas, nem cultivaram a aversão ao sexo oposto, pelo contrário, já se encontram, desde os primeiros anos escolares, à procura de conhecimento nos assuntos mais íntimos do relacionamento, coisas da nova era... A frase “éca, garota??? Que nojo” há muito não é ouvida ou reproduzida pelos corredores do primeiro grau.
Estava claro, Luciana ficara com vergonha de pedir o desenho pessoalmente e enviou um mensageiro. Diante tal revelação, era óbvio que a borboleta seria libertada de sua mente para a folha do caderno e, em poucos minutos de concentração e pequeno esforço, lá estava, bela e pintada, pousada sobre as suaves linhas azuis do espiralado caderno, uma borboleta linda, com a asa direita quadrada, alguns retoques
de flor e pólen (na visão de um pai mais orgulhoso, podendo ser definidos como simples rabiscos e pontadas borradas para os professores modestos).
Mas o trabalho ainda não estava completo, Adalberto ainda tinha que entregar a encomenda sem que ninguém soubesse de sua façanha proibida. Não queria que a garota ficasse constrangida frente os colegas de classe, pois ela mesmo tinha feito tremendo esforço para esconder suas intenções com o famoso artista. Como ele contataria a garota mais cobiçada da escola sem que ninguém percebesse e, juntamente com o vexame, revelasse sua obra ao mundo? Aliás, tantos anos de talento adquirido não poderiam ser arriscados por uma aventura, uma borboleta feminina e delicada. Havia muito o que pensar sobre como seria a entrega, e logo estava Betinho novamente a apertar o pescoço do já cansado courier. Mas nenhuma informação pôde ser levantada desta vez, um monitor percebeu a agitação no corredor e interveio pelo entregador, absolvido injustamente pela cega justiça escolar.
O jeito seria entregar na próxima aula mesmo, direta e brevemente, sem alarde, sem delonga. Esperou o sinal tocar, caminhou pelo corredor disfarçando seu suor frio e adentrou a classe tomando o rumo da carteira de Luciana. Foi caminhando lentamente em direção da beldade, retirando suavemente o papel dobrado do bolso e esboçando um sorriso amarelo e tímido, ensaiado pelo discurso de presente que doaria à garota, em cortesia a sua beleza. Mais um passo e estaria nas nuvens, sendo agradecido pela ruiva em como dois amantes em segredo, e quem sabe não seria este o início de algo mais quente? Todos os seus esforços seriam então recompensados, valeria a pena trocar os piratas e dragões pela borboleta. Uma palavra ia saindo de sua boca gaguejante quando uma mão muito leve tocou-lhe o ombro esquerdo. Ele virou-se com olhar reprovador,
querendo livrar-se do obstáculo o quanto antes, e só ao seguir os braços pequenos cobertos pelo moletom rosa de listras brancas, levemente perfumado de lavanda e sabonete infantil, seguindo o pescoço claro entre mexas de cabelo castanho, pode chegar ao rosto sardento de Mariana.
Betinho se deu conta da situação. Garoto de rápido processador cerebral, iniciou uma corrida matemática criada involuntariamente pelo estímulo da visão daquela garota, tão bela ou mais que Luciana, cativante, esperta, viva e engraçada, muito menos cobiçada, convenhamos, sem a propaganda massiva de sua concorrente de classe, mas sempre uma ótima companhia em trabalhos e maquetes feitos em casa. Estava mais que claro, a exatas duas fileiras de Betinho, do lado oposto à mesa da professora, próxima à porta da classe, sentava-se Mariana, que tantas vezes se admirava em folhear o caderno de Adalberto e elogia-lo pelos dragões e piratas, adorando aqueles desenhos "de menino".
Parte III
Era ela, sem dúvida alguma, que tinha feito a encomenda. Ele até se lembrou, somente agora, neste momento inquietante, de um comentário da garota que pedia um desenho mais feminino para algum lugar na agenda de seu futuro. Uma lembrança de um amigo.
Betinho só pode então derrubar o bilhete no chão, enfrentando a já aferida humilhação do quase engano que cometeria. Virou-se em direção a sua mesa e, analisando a perda da chance de se relacionar com a garota mais famosa das dezoito salas de aula do período da tarde, fechou-se em seu mundo e não emitiu sinais de vida por longos
dois períodos de ciências, um de matemática e outro de educação artística, sua aula preferida. Todos estranharam, mas respeitaram o retiro artístico de Adalberto, um gênio incompreendido em sua primeira desilusão profissional e amorosa.
Alguns dias depois, já com os pedidos menos freqüentes e sem a mesma reputação de outrora, Adalberto tornara-se mais um entre os tantos talentos da escola. Participava de todas as atividades, era ativo e feliz, mas já não esbanjava atenção ou renome. Alguns comentavam as obras de Betinho, uma coleção de peças ora apresentadas ao público em exposições para pais e mestres, entre os murais de feltro dos corredores do refeitório. Tudo ia bem normal, como tinha que ser para criar um garoto humilde e ao mesmo tempo consciente de seu talento. Em duas semanas, o mesmo entregador se pôs em pé ao lado da carteira de Adalberto e lhe entregou um pacote, assegurando que tinham os cumprimentos de seu último cliente (Mariana, é claro). Betinho se conteve por alguns minutos, ignorando a presença sutil de mariana a duas fileiras, como tinha feito já há tantos dias, mas após sua curiosidade aumentar, olhou para o pacote, um saquinho de pipoca doce vermelho amarrado por elásticos e um clipe cor-de-rosa. Começou a abri-lo lentamente, evitando barulhos que desconcentrassem a já iniciada aula, para conferir o conteúdo do pacote.
E lá estava o prêmio, o tão merecido pagamento pelo fato acontecido, que lhe custou a inspiração e o sucesso nos negócios, numa visão mais dramática e holliwoodiana: dois bombons, uma lapiseira 0.7 e uma borracha metade azul e metade vermelha, novinha. Estava claro que a garota pedira a sua mãe para comprar o material. Na verdade, a lapiseira ainda apresentava a etiqueta de preço. Seguindo o maravilhoso presente, o melhor pagamento já recebido por um desenho em sua iniciante carreira, brotava para fora do saquinho um bilhete, com certeza escrito pela garota, em letras grandes e tortas, tremidas e leves: “Para você desenhar para sempre. Obrigada”.
Claro que foram necessários alguns momentos e três leituras consecutivas para que o garoto compreendesse o conteúdo do bilhete. Betinho então criou coragem e, rompendo o gelo inquebrável anteriormente, sorriu com constrangimento para Mariana que, de tão tímida, logo ficou toda rosada baixando os olhos, levantando-os somente após ter certeza que Betinho não a observava mais.
Betinho não se deteve mais em sua ociosidade e, no mesmo momento começou a testar o novo material, criando sombras nos navios, dragões brilhantes de grafite, espaçonaves... E os piratas viraram animais, que viraram caricaturas, que viraram lindos quadros, histórias e sentimentos.
O tempo se passou, e como tudo na vida tem seu lado bom e seu propósito, como todos estamos acostumados a concordar com os acontecimentos do sábio tempo, a boa e velha denominação estudantil do primário virou ginásio, depois colégio e faculdade. Os colegas do primeiro grau cresceram, mudaram-se de escola ou de cidade, deixando as lembranças quase apagadas em cada centímetro de crescimento, em cada tênis que não serviu mais, em cada bilhete deixado para trás. E então Betinho virou Adalberto Rapozo, ilustrador reconhecido de livros, HQs e restaurador de pinturas históricas, marido de Mariana Castro, bióloga.
Ivan Volpe - 25 de maio de 2007
A gente conhece uma pessoa e acaba nem se lembrando quando, pois o tempo é um escritor em férias que não consegue parar de criar suas crônicas, mas já não tem data de fechamento. De repente aquela pessoa começa a fazer parte da sua vida, tanto que as datas se perdem entre as suas. O convívio diário cria intimidade, a gente se conhece, se diverte, briga, se atura, se emociona... E, sem nem pensar no sentido da palavra em si, já são grandes os AMIGOS, aqueles de verdade, que nem a distância nem o tempo conseguem separar. Mas, por descuido involuntário, lapso de atenção ou desvio do próprio caminho, o contato vai se perdendo, vai afastando as palavras, retirando suavemente a rotina. Ambos conhecem novas pessoas, novos colegas, novos namoros. As responsabilidades aumentam e mal sobra tempo para fazer o que se gostaria, se encontrar com aquela pessoa que tanto faz falta, tanto faz sentido, tanto faz valer cada momento distante. Mas tudo isso não faz mal, fora a saudade (que na verdade não tem contra-indicação), ainda sobram as lembranças. Elas sorriem por si e nos despertam a alegria de saber que está tudo bem e tudo melhorando a cada dia. E quem sabe em um deles, caminhando entre as folhas marcadas deste álbum de fotografias, poderemos nos encontrar e brincar como fazíamos antes, desfrutando a mesma amizade plena, sem compromisso, na esperança de podermos nos ver pessoalmente num futuro que ainda nem existiu.
Mais uma de amor (mal amado)
Tantas buscas, tantos anseios e devaneios sobre o Amor. E quando menos se espera, ou mais, ele teima em acabar, deixar vazio o peito e buscar conforto na solidão, e esta sim, que talvez seja a nossa melhor amiga.
Me perdi em tantos amores que hoje nem sei mais o que é ser romântico. Chutei o balde, gritei e me descabelei ao vento, na tentativa de extrair das paredes íntimas o que ainda resta de paixão e calor. Suei frio e me vi vencido, jogado na verdadeira fossa do quarto, procurando, em vão, os resquícios de felicidade que poderiam estar aguardando meu ansioso toque pelas migalhas de poeira do tapete.
E só pude mesmo acordar no sonho, encontrando os olhos que sempre vi ali, longe, na clareza embaçada de uma nuvem que aguarda o sinal para derramar as gotas de saudade forte, de alguém que ainda nem conheci. Ela está lá, a perfeição para mim! Me esforço para alcança-la, tocar suas mãos e ser guiado ao mundo completo de dois amantes, confidentes e eternos parceiros. Corri para chegar até aquela imagem graciosa, ouvindo a voz que, cantando palavras indecifráveis na suavidade do alem, ia desaparecendo por completo de minha vista. Não, não vá ainda, não se perca de minha visão!
Do mesmo jeito que veio, se foi por completo, deixando o perfume que trará lembranças de relance, quando estiver caminhando na rua ou no shopping, passando por tantas outras perfeições potenciais de minha vida como casal, atraindo minha atenção em direção ao ar proibido das paixões que se foram voando, junto com a adolescência desbotada em uma foto antiga. E então ao sentir tal perfume, poderei fazer uso das memórias que ficarão deste sonho, seus olhos, ah, que olhos... a voz, a doçura, tudo vai se apagando para a realidade de estar acordado, junto ao tapete ainda escurecido pelas gotas úmidas.
E não adiantam os sonhos pelo Amor, não adiantam as mágoas retraídas, nem nada, estarei sempre buscando alguém, sempre idealizando uma forma de estar completo e acompanhado, enquanto a única coisa que realmente me fará ser e ter o todo que me aguarda, é a imensidão interna de mim mesmo, o que há dentro e não fora para ser procurado, almejado. O par ideal talvez esteja mais perto do que eu pensava...
Só assim encontro forças para retomar a postura, enxugar o rosto e encarar a estrada que se transforma à frente. Me despeço de mais um Amor, mais uma história se foi. E mesmo que estas sejam as palavras de um grande entendedor do Amor real, me recuso a acreditar que o sonho acabou.