04.04.07
Show da Noite
Programação Noturna
A noite cai nostálgica e rosada, entre o azul imperador de um céu já estrelando de cansaço após um dia cheio de trabalho. E é logo após a porta de entrada que se concretizam as junções familiares, acima do tapete da sala, cortada pela mesa de centro vazia, onde agora se espicham os pés do senhor patriarcal, dono do lar. A mãe continua a empilhar as louças dentro da máquina de lavar louça e, mesmo estando a poucos metros da sala, grita como se fossem quilômetros:
_ Já começou?
E o senhor de bigodes, empurrando sua regata para cima da barriga, onde descarrega uma coçada que dura bem mais de dois minutos, responde farto em repouso denso:
_ Nããããão.
Um terremoto se inicia quando a filha mais velha, em tempo recorde, desce as escadas com suas sandálias plataformas, mal agarrando a seus pés, ecoando o grave tremor dos degraus por todas as paredes daquela humilde casinha geminada. Mais um grito afobado necessita percorre os aposentos do lar:
_ Paaaaaaai, já começou?
E o mesmo rosnado cansado, refletido pela luminosidade azulada do centro das atenções no momento, a santa televisão, evoca as forças do íntimo do diafragma para se soltar pelo ar com um arranhado inicial:
_ Ainda nãããããão.
Neste momento a mãe joga o último copo, meio que sem precisão, sobre a pilha já avolumada de louça suja dentro da apertada lavadora. O copo cintila, faz um som médio agudo do contato com um prato e um garfo, eles caem pelas grades sem oferecer perigo enquanto o copo gira em sua base e ameaça destruir os planos para aquele início de noite. A mãe, como uma contorcionista-malabarista, vira-se de imediato e, com a ponta de seu dedo mindinho consegue evitar a queda do copo, o vilão do horário nobre que se aproxima. Num suspiro de orgulho, ela fecha a tampa da máquina entupida e gira os botões como que automaticamente, já virada para o caminho que a levará à sala tão desejada.
Um estrondo, uma batida! A porta treme enquanto sua maçaneta gira alucinadamente de um lado para o outro. A família se assusta. Seria um bandido perdido no caos da periferia? Um seqüestrador? Um molestador de famílias? Mas o que diabos um criminoso estaria procurando por estes lados de classe média baixa?
Mais um som grotesco e a porta se abre revelando a temida sombra, que adentra a sala sem hesitar, desbravando seus interiores e revelando seu semblante pálido e suado.
_ Mãe, pai, já começou? Perdi alguma coisa?
_ Nossa, filho, que susto! Ainda não arrumou outra chave? Não, ainda não começou.
Todos sentam-se e sentem-se seguros no conforto do sofá de três lugares. O caçula, que agora tira os tênis e as meias, fazendo uma careta de repulsa, seguido pelos outros três membros da família reunida, senta-se no chão e joga a mochila para o lado, sem tirar os olhos do centro de toda a casa, o mestre da reunião familiar, o apaziguador do caos e criador da harmonia, o venerado televisor.
A hora se aproxima, tudo o que a família precisa está preparado e depositado sobre a mesa de centro, dividindo o espaço reduzido com os pés do pai: jarra de groselha com gelo, pipoca de microondas sabor requeijão, guardanapos e portas-copo, pois uma família prevenida vale por duas, e evita mais trabalho para a mãe.
A noite agora já profunda e todos aguardam o início do show, o espetáculo televisivo ao vivo, um reality show que há meses vem mexendo com os integrantes da família, seus amigos, parentes, colegas de trabalho e escola. Os olhares estão penetrados cheios de atenção no aparelho de Tv. As bocas semi-abertas só se fecham entre o mastigar de um punhado de pipocas, que são arremessados para o interior fatal, deixando que três ou quatro flocos de milho estourado caiam junto aos peruas pelo tapete imitação persa.
Plim plim! O comercial acaba, a vinheta do programa se inicia e enche de sorrisos as faces de todos os membros reunidos na sala. Mais um episódio, cheio de confrontos e batalhas, emoções e romances tão distantes da realidade para um reality show. O fade in apresenta a casa e os participantes.
_Ai, ai, está começando! – A filha não se agüenta e solta um “u-hu” empolgado.
A primeira fala e...
Piw pow puw... As luzes da casa piscam por um segundo e mergulham num breu total, quando é possível ouvir, tanto de dentro como de fora da casa um “ahhhhhhhhhhh” geral de todo o quarteirão, o bairro, quiçá, a cidade toda!
_ Não acredito! Bem agora?! Que merda! P#$@¨&... – O filho não se contem e lança no ar sua ira verbal.
_ Olha a boca, garoto, não foi esta educação que eu te dei! – O pai tenta controlar a situação.
_ Ah, vá-te à merda! – A filha explode em soluços e choro.
_ Hei, como assim?! Que que é isso?! – O pai, mesmo sem saber o que iria acertar e mesmo sem ser notado, levanta a mão como que em repreensão à filha.
_ Ah, pai, não é com você, é com esse apagão dos diabos.
_ Não acredito! Eu lavei a louça toda correndo, me esforcei tanto e não vamos conseguir assistir ao programa? Aaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhh... – A mãe se exalta.
O som do atrito revela a chama de um isqueiro iluminando parcialmente o sofá, revelando a mão ainda estendida do pai e os rostos de decepção da família.
_ Vou procurar as velas. – Diz o filho, já aceitando a derrota pelo blackout.
_ Magina, a força logo mais vai voltar e a gente vai poder assistir tudo normalmente. – A filha ensaia um otimismo sem fundamentos – Deve ser só uma manutençãozinha rápida.
_ Hei, o que é que o senhor anda fazendo com um isqueiro? Ta fumando escondido de novo? Olha que eu te dou uma lição pra nunca mais esquecer... – O pai já ia descer a mão no filho quando a luz tremulou, piscou três vezes em menos de um segundo e voltou a apagar. Todos ensaiaram um “Aaaaaaaaaaeeeeeeeeee” eufórico de alegria, mas tudo foi em vão, e a luz se foi mais uma vez.
O filho já estava longe, falando ao vento algumas bobagens e reclamações, já contidas pelos azulejos da pequena lavanderia, onde as velas são armazenadas. O pai procura pelo filho com revolta, pois um ex-fumante nunca é páreo fácil para um adolescente rebelde. A mãe cruza os braços e solta no ar todos os palavrões que há anos continha dentro de sua garganta, enquanto a filha chuta o sofá numa demonstração de puro ódio e auto-flagelo. O terror se instala naquele outrora pacífico e harmonioso lar.
_ O telefone! Vamos ligar para a central de energia! – Grita a mãe, tendo uma brilhante idéia. E após alguns segundos discutindo com o telefone, volta ao sofá, agora iluminado por quatro velas nas mãos dos presentes, e senta-se desconsolada dizendo que não há previsão de retorno da luz.
O filho enlouquece e começa a ameaçar queimar o cabelo da filha, que responde com um empurrão que quase o derruba pela mesa de centro. O pai levanta a mão mais uma vez repreendendo a atitude dos dois. A mãe, começa a chorar soltando tantas angústias retraídas, provavelmente liberadas após o ataque de palavrões. A filha agora bate as mãos na TV, esperando que esta escute suas ameaças, o filho, brincando de passar o dedo na chama da vela se queima e derruba o pires que a continha, causando enorme estrondo, a mãe, aos prantos, grita com o filho, a filha grita: _Viu o que você fez?! – O pai grita para a filha não gritar e ela responde dizendo que ele é que está gritando, ele o repreende mais uma vez levantando a mão e o filho berra pois se cortou com um dos cacos do pires. O caos é iminente, os conflitos se estreitam, a chama queima dentro de todos e uma explosão pode acontecer a qualquer momento, com grande perigo de morte.

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criado por ivanlagunna
23:36:56